Em Cabedelo, não é só o vento do litoral que sopra forte. Há também um silêncio curioso, persistente e, ao que tudo indica, bem remunerado. Um silêncio que não nasce da falta de pauta, nem da ausência de fatos. Pelo contrário. Ele surge justamente quando os fatos começam a incomodar.
Nos últimos tempos, alguns episódios políticos e administrativos chamaram atenção pela gravidade. Mas, curiosamente, parte da imprensa local resolveu adotar uma postura quase contemplativa, como se estivesse assistindo a tudo de camarote… ou melhor, de camarim. Porque, nesse caso, o espetáculo parece ter patrocínio.
A pergunta que fica no ar, sem resposta oficial mas com muitos sussurros de bastidores, é simples: desde quando salário alto virou argumento editorial?
Não se trata de generalizar. Ainda há profissionais que fazem jornalismo de verdade, que incomodam, investigam, apuram e publicam. Mas também é impossível ignorar um movimento visível de “domesticação” de vozes que antes eram críticas. De repente, pautas desaparecem, denúncias perdem espaço e certos nomes viram quase intocáveis.
Coincidência? Pode ser. Mas é uma coincidência que paga bem.

Quando setores da imprensa passam a depender financeiramente de quem deveria ser fiscalizado, o resultado é previsível: a crítica vira cautela, a investigação vira silêncio e a informação vira produto seletivo. Publica-se o que convém. Omite-se o que atrapalha.
E assim vai se construindo uma narrativa confortável, onde tudo parece sob controle, mesmo quando não está.
O problema é que esse tipo de silêncio não é neutro. Ele tem efeito direto na população, que deixa de ter acesso a informações relevantes sobre quem governa, como governa e, principalmente, a que custo governa. No fim das contas, não é só a imprensa que perde credibilidade. É o próprio cidadão que perde o direito de saber.
Talvez o mais irônico nisso tudo seja o discurso que ainda se mantém: independência, compromisso com a verdade, defesa da sociedade. Palavras bonitas, repetidas com frequência… mas cada vez mais distantes da prática em alguns casos.
Porque, no fim, a conta é simples. Quando o silêncio é conveniente demais, dificilmente ele é gratuito.
E em Cabedelo, ao que parece, há quem esteja cobrando — e recebendo — muito bem por ele.