Uma tentativa de fuga digna de roteiro policial expôs uma grave brecha envolvendo o sistema prisional e mecanismos eletrônicos da Justiça na Paraíba. Sete integrantes de facções criminosas presos na Penitenciária de Segurança Máxima Dr. Romeu Gonçalves de Abrantes, os presídios PB1 e PB2, quase deixaram a cadeia pela porta da frente utilizando alvarás de soltura falsificados.

Segundo documentos da investigação, os presos chegaram a ficar muito próximos da liberdade. Alguns deles, inclusive, teriam sido chamados para assinar a suposta documentação de soltura. O plano só não foi consumado porque policiais penais desconfiaram das ordens judiciais e resolveram fazer uma checagem direta com os magistrados responsáveis pela Vara de Execuções Penais.
Ao consultarem a juíza Andrea Arcoverde Cavalcanti Vaz e o juiz Carlos Neves, a fraude foi descoberta: as assinaturas atribuídas aos magistrados eram falsas.
Entre os presos que seriam beneficiados pelo esquema estão Clodoberto da Silva, conhecido como Betinho; Diego Alexandro dos Santos Ribeiro, o Baiola; Samuel Mariano da Silva, o Samuka; João Batista da Silva, o Junior Pitoco; Célio Luis Marinho Soares, conhecido como Guará; Vinicius Barbosa de Lima, o Vini; e Francinaldo Barbosa de Oliveira, o Vaqueirinho.
Investigações preliminares apontam que os documentos teriam sido enviados por meio do sistema Malote Digital do Conselho Nacional de Justiça. A suspeita levanta um cenário ainda mais alarmante: credenciais de servidores federais podem ter sido utilizadas para inserir os documentos fraudulentos no sistema oficial.
O perfil dos presos aumenta ainda mais a gravidade do caso. Segundo informações obtidas no sistema prisional, entre os envolvidos há lideranças e integrantes da alta cúpula de organizações criminosas que atuam em diversos estados do Nordeste. A lista inclui um chefe do Comando Vermelho na Paraíba, fundador do Bonde do Cangaço, liderança da Nova Okaida e membros ligados ao crime organizado na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
Documentos obtidos durante a apuração indicam que pelo menos dois dos presos acumulam penas superiores a 27 anos de prisão. Outro integrante do grupo possui condenação de 19 anos por diversos crimes.
Ao tomar conhecimento da fraude, a juíza Andrea Arcoverde determinou providências imediatas.
“Trata-se de documento falso, elaborado com a finalidade de fraudar a Justiça e de acarretar a soltura indevida do sentenciado”, destacou a magistrada em decisão.
Diante da gravidade do episódio, foi solicitado ao secretário de Segurança Pública a instauração de inquérito policial e a designação de um delegado especial para investigar o caso em profundidade.
Também foram comunicados a Presidência do Tribunal de Justiça da Paraíba, comissões de segurança institucional, setores de tecnologia da informação e a Corregedoria-Geral de Justiça. Paralelamente, uma sindicância interna foi aberta na unidade prisional.
Em nota, o Tribunal de Justiça da Paraíba confirmou a tentativa de fraude e informou que nenhuma soltura ocorreu.
A investigação agora tenta responder uma pergunta central: quem teve acesso suficiente para produzir documentos falsos capazes de quase libertar integrantes da alta cúpula do crime organizado? Porque a tentativa fracassou por pouco — e, segundo investigadores, bastaram alguns minutos a mais para que presos de alta periculosidade simplesmente atravessassem o portão principal e desaparecessem nas ruas.