Empresas afundam em dívidas: recuperações judiciais crescem e pressionam economia brasileira

Mais de 6,3 mil empresas estão em recuperação judicial, enquanto 9,1 milhões de negócios acumulam contas em atraso; juros elevados, endividamento e queda do consumo ampliam o risco de novas crises

O aumento dos pedidos de recuperação judicial e o avanço da inadimplência empresarial acenderam um sinal de alerta sobre a situação financeira das empresas brasileiras. Em três anos, o número de companhias em recuperação judicial cresceu 66%, chegando a 6.341 casos, segundo dados destacados em levantamento publicado nesta quinta-feira (20).

O problema não se limita às empresas que já recorreram à Justiça. Cerca de 9,1 milhões de negócios enfrentam dificuldades para pagar suas obrigações em dia, acumulando aproximadamente R$ 232 bilhões em dívidas atrasadas. O cenário atinge setores como comércio, indústria, construção civil, transporte e agronegócio.

Crédito caro aperta empresas e trava investimentos

Um dos principais fatores apontados para o agravamento da crise é o custo do crédito. Com a taxa básica de juros em 14% ao ano, empresas endividadas enfrentam dificuldades para renovar empréstimos, captar novos recursos e manter o fluxo de caixa.

O efeito é direto: recursos que poderiam ser destinados à expansão, modernização e contratação acabam sendo utilizados para pagar dívidas e despesas financeiras.

Economistas ouvidos pela reportagem da VEJA avaliam que muitas empresas passaram a recorrer ao crédito não para investir ou crescer, mas simplesmente para cumprir compromissos financeiros já existentes.

Varejo concentra casos emblemáticos

O setor varejista aparece entre os mais pressionados. A Casas Bahia e a rede Marabraz estão entre as empresas que recentemente recorreram à Justiça para reorganizar suas dívidas.

A Casas Bahia declarou pendências de R$ 17,3 bilhões. Antes do processo de recuperação, a companhia já havia fechado quase 300 lojas e enfrentava um processo de reestruturação que incluía milhares de postos de trabalho. Já a dívida informada pela Marabraz chega a R$ 140 milhões.

Outros grupos também enfrentaram processos de reorganização financeira nos últimos anos, em uma sequência que inclui empresas como Americanas, Dia, Polishop e Tok&Stok. O Grupo Pão de Açúcar, por sua vez, adotou a recuperação extrajudicial para renegociar débitos com credores.

Além do endividamento, o varejo tradicional enfrenta a mudança no comportamento do consumidor e o avanço das vendas digitais. No primeiro semestre de 2026, o varejo brasileiro, incluindo o comércio eletrônico, registrou crescimento de 1,9% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo dados citados do IBGE. No caso das lojas físicas da Casas Bahia, houve retração de 2,6%.

Agronegócio também entra no radar

A crise financeira também alcançou o agronegócio, setor frequentemente apresentado como uma das principais forças da economia brasileira.

As recuperações judiciais no campo registraram o maior crescimento entre os setores analisados nos últimos doze meses. Excluindo produtores pessoas físicas e microempresas, a proporção chegou a 26 empresas em recuperação judicial para cada mil negócios do setor, índice mais de três vezes superior ao registrado pela indústria, segundo os dados citados pela VEJA.

A combinação entre queda nos preços de commodities, elevado endividamento e custo financeiro tem aumentado a vulnerabilidade de produtores e empresas ligadas à cadeia do agronegócio.

Endividamento das famílias reduz consumo

A situação empresarial também está diretamente ligada ao orçamento dos consumidores. Com famílias comprometidas por dívidas, sobra menos dinheiro para compras, o que reduz o faturamento das empresas e amplia a pressão sobre o caixa.

Em julho, quase 84 milhões de brasileiros estavam inadimplentes, número equivalente a aproximadamente metade da população adulta do país e apontado como recorde histórico pela Serasa Experian.

O avanço das apostas on-line também aparece no debate econômico. A Confederação Nacional do Comércio estima que o varejo tenha deixado de faturar R$ 143 bilhões entre janeiro de 2023 e março de 2026 em razão da destinação de parte da renda dos consumidores para plataformas de apostas, conforme dados reproduzidos pela publicação.

Recuperação judicial deixa de ser caso isolado

O avanço simultâneo das recuperações judiciais, da inadimplência empresarial e do endividamento das famílias revela um problema que vai além de crises isoladas de grandes companhias.

O ambiente de juros elevados encarece o crédito e dificulta a renegociação de dívidas. Ao mesmo tempo, a perda de poder de compra limita o consumo, reduzindo receitas justamente em setores que dependem do mercado interno.

A recuperação judicial funciona como um instrumento para suspender temporariamente cobranças e permitir a negociação com credores, mas o crescimento expressivo no número de empresas que recorrem ao mecanismo indica uma deterioração da capacidade financeira de parte relevante do setor produtivo.

Com mais de 6 mil empresas em recuperação judicial e milhões de negócios enfrentando dificuldades para manter suas contas em dia, o quadro passa a representar um indicador importante sobre os riscos que o crédito caro, o endividamento e a redução do consumo podem impor à economia brasileira nos próximos meses.