Denúncias apontam furto de entorpecentes, fraude em documentos e abuso de autoridade. Ministério Público pede perda dos cargos e confisco de patrimônio que pode ultrapassar R$ 3 milhões.

A estrutura criada para combater o crime organizado teria sido usada para alimentá-lo. Essa é a conclusão apresentada pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público da Paraíba, que denunciou criminalmente um delegado e dois investigadores da Polícia Civil, acusados de integrar um esquema que, segundo as investigações, desviava drogas apreendidas para posterior revenda.
As denúncias, apresentadas nesta sexta-feira (24), atribuem aos policiais quatro crimes: furto qualificado, abuso de autoridade, falsificação de documento público e fraude processual. Mais do que uma lista de acusações, o caso expõe um cenário em que agentes encarregados de proteger a sociedade são acusados de usar a própria máquina do Estado para beneficiar o tráfico de drogas.
Um esquema que teria funcionado por dentro da polícia
De acordo com o Gaeco, o grupo não apenas desviava entorpecentes oficialmente apreendidos. As investigações apontam que também realizava incursões clandestinas para retirar drogas de operações policiais antes mesmo da formalização dos procedimentos.
Para esconder o suposto esquema, registros policiais teriam sido manipulados, reduzindo a quantidade de drogas oficialmente apreendidas ou alterando informações capazes de dar aparência de legalidade ao desaparecimento dos entorpecentes.
Segundo o Ministério Público, parte da droga desviada era revendida, inclusive para abastecer o sistema prisional — justamente um dos ambientes onde o Estado enfrenta maiores dificuldades para conter a atuação das facções criminosas.
O preço da corrupção
As denúncias revelam cifras expressivas.
O Gaeco calcula que somente na primeira ação penal o patrimônio supostamente obtido com o desvio de drogas alcance cerca de R$ 2,1 milhões. Na segunda denúncia, o valor estimado chega a R$ 1 milhão, relacionado ao desaparecimento de aproximadamente 100 quilos de entorpecentes.
Além do confisco de veículos, bens e ativos financeiros bloqueados durante a investigação, o Ministério Público pede que os três denunciados sejam condenados ao pagamento de R$ 1 milhão por denúncia a título de danos morais coletivos.
Na prática, o órgão sustenta que os prejuízos ultrapassam a esfera financeira. Quando policiais são acusados de negociar drogas apreendidas, a credibilidade das instituições de segurança também entra em julgamento.
A perda da farda
O Ministério Público também requereu à Justiça a perda dos cargos públicos dos denunciados em caso de condenação.
O pedido parte do entendimento de que os fatos investigados, se confirmados pela Justiça, representam violação grave dos deveres funcionais e incompatibilidade com o exercício da atividade policial.
Não se trata apenas da responsabilização criminal, mas da tentativa de impedir que agentes acusados de utilizar a estrutura estatal para práticas ilícitas permaneçam exercendo funções públicas.
Operação Perfidus: um nome que resume as acusações
Deflagrada em 2 de junho de 2026, a Operação Perfidus recebeu um nome carregado de simbolismo.
“Perfidus”, em latim, significa “traidor” ou “desleal”. Segundo o Gaeco, a denominação faz referência justamente à suspeita de que servidores públicos teriam traído a confiança da população ao utilizar a autoridade conferida pelo Estado para favorecer atividades criminosas.
Durante a operação foram cumpridos nove mandados de prisão, 24 mandados de busca e apreensão e determinado o bloqueio judicial de aproximadamente R$ 10 milhões.
As investigações também apontam que informações sigilosas eram repassadas a traficantes, permitindo que organizações criminosas antecipassem ações policiais e preservassem seus interesses.
O outro lado
Até o momento das denúncias, a ação penal encontra-se em fase inicial. Os denunciados terão direito ao contraditório e à ampla defesa durante o processo judicial. Caberá ao Poder Judiciário analisar as provas apresentadas pelo Ministério Público e decidir sobre eventual condenação ou absolvição.